Para iniciar…

…com uma discussão que seja sobre o valor de um poeta ou do que podemos chamar de poeta.

Eis abaixo um excerto extraído dos diários de Kenneth Tynan (crítico teatral e escritor inglês):

25 de fevereiro de 1971

Depois de jantar, fomos ao apartamento de Peter Sellers, em Chelsea, onde converso com George Harrison, dos Beatles (cabelos com pelo menos 70 centímetros de comprimento), sobre o musical que quero escrever para a Natinal Theatera a partir de Tyger, de William Blake. Espero que me dê alguma sugestão de compositor. Com muito custo finalmente revela, ao cabo de uma longa conversa, que nunca “curtiu muito literatura inglesa” e que, na verdade, nunca ouviu falar de William Blake. O que é surpreendente e triste. É uma pena que ele possa se considerar poeta sem jamais ter tido a oportunidade de se comparar a um poeta como Blake.

(Tradução de Sergio Flaksman)

A questão então é: Quem pode se considerar um poeta? O que é um poeta? O que faz? e acho que essa última seria a questão mais pertinente, Existe poeta?
Se buscarmos saber a forma como se chegou a estabelecer o conceito de poeta, desde de tempos imemoriais, veremos que provavelmente alguém primeiro poetou e logo em seguida todos que seguiram a sua tendência de escrita por ventura seriam também chamados de poetas. Talvez eu seja poeta por que escreva parecido com tal escritor, tenha uma entonação de tal poeta, a força de uma tal poetisa e no fim acabamos estabelecendo nosso conceito de quem é poeta por comparação.
Outro dia, um colega buscando ajuda e opinião sobre um poema que havia escrito me perguntou se o poema estava bom. Antes da minha resposta ele mesmo alegou que talvez estive com alguns erros. Mais o que seria o erro na poesia: a grafia esdrúxula de uma palavra? A incoerência sintática de um verso? Ou a falta de ritmo e métrica?
Lembro que minha resposta foi: Ninguém está pedindo para você escrever como Camões.
Eis a comparação!!!

Outra vez também chegaram até mim (via orkut) e falaram que admirava meus versos mais não queria correr o risco de comparar-me. ou foi algo parecido com isso. Então quem seria eu? Como já disse um visceral poeta russo “Sou poeta. É justamente por isto que sou interessante. E sobre isto escrevo. Sobre o restante apenas se foi defendido com a palavra.”

Eu nunca li William Blake!!!

Eis um poema de George Harrison:

~ por Kaefe em Março 7, 2008.

2 Respostas to “Para iniciar…”

  1. ah, finalmente criou o blog, né?

    sobre Kenneth Tynan, George Harrison e William Blake, bem… já pensou se para ser poeta fosse necessário ler todos os livros do mundo?

    se você se preocupa demasiadamente em ler tudo, se esquece de ser vc mesmo… o tal crítico teatral é um ótimo exemplo: quem é Kenneth Tynan?

    Um abraço, mano! Vida longa ao blog!

  2. Canções da Inocência e da Experiência, de William Blake (tradução de Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves; Crisálida; 152 páginas; 23 reais) – A obra de Blake (1757-1827) é uma das mais belas da poesia inglesa. E também uma das mais estranhas: Blake, que dizia ter enxergado Deus com 4 anos de idade, criava versos cheios de imagens visionárias e referências religiosas. Traduzidos integralmente pela primeira vez no Brasil, Canções da Inocência e da Experiência incluem alguns dos poemas mais conhecidos do autor, como O Tygre e O Limpador de Chaminés. Uma pena que a tradução, embora correta, nem sempre se aproxime do brilho e da fluência dos versos originais. A edição, pelo menos, é bilíngüe.

    Leia trecho

    Infant Joy

    I have no name
    I am but two days old. –
    What shall I call thee?
    I happy am
    Joy is my name, –
    Sweet joy befall thee!

    Pretty joy!
    Sweet joy but two days old.
    Sweet joy I call thee:
    Thou dost smile.
    I sing the while
    Sweet joy befall thee.

    Alegria Infantil

    Não tenho nome
    Nasci há dois dias. –
    Te chamo como?
    Eu sou feliz
    Alegria é meu nome, –
    Doce alegria te sorria!

    Linda alegria!
    Doce alegria, mas de dois dias.
    Doce alegria, te chamo:
    Você sorri.
    Enquanto canto
    Doce alegria te sorria.

    A POISON TREE.

    I was angry with my friend:
    I told my wrath, my wrath did end.
    I was angry with my foe:
    I told it not, my wrath did grow.

    And I waterd it in fears,
    Night & morning with my tears:
    And I sunned it with smiles,
    And with soft deceitful wiles.

    And it grew both day and night,
    Till it bore an apple bright.
    And my foe beheld it shine,
    And he knew that it was mine.

    And into my garden stole,
    When the night had veild the pole;
    In the morning glad I see,
    My foe outstretchd beneath the tree.

    UMA PLANTA VENENOSA.

    Tenho raiva de um amigo:
    Falo da ira, e não mais brigo.
    Do inimigo tenho raiva:
    A ira cresce, não digo palavra.

    E com medo irriguei-lhe os cantos,
    Noite & dia com meus prantos:
    E a ilumino com meus sorrisos,
    E falsos artifícios.

    E crescendo noite e dia,
    Deu uma maçã que reluzia.
    Vê seu brilho meu inimigo,
    Sendo minha, não vê perigo.

    E em meu jardim ele a esfola,
    Quando a noite cobre o pólo;
    De manhã, alegre, acho caído,
    Sob essa planta o meu inimigo.

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