De John Maynard Keynes, profecias e revista nacional – Né? Veja!

Entender os mistérios de uma profecia. O intricado palavreado e as metáforas alucinantes que são soltas e esbaforidas pela boca de um “iluminado”. Quem o pode? Lirovsky?
“Um é o todo, e por ele o todo e nele o todo e se não contém o tudo é nada.”
Como assim?
Um parágrafo de números
Aconteceu 5ª, 28 de agosto, em Teresina, a peça de João Paes de Lira, o Lirinha da banda Cordel do Fogo Encantado. Dentro da programação do Festluso – I Festival de Teatro Lusófono que ocorreu entre os dias 24 e 30 de agosto – Lirinha apresentou pela 9ª vez seu trabalho de cinco anos, a peça “Mercadorias e Futuro”, aos módicos 5 reais. Um monólogo que se desenvolve por quase duas horas (com um custo de 0,04 centavos/min para o espectador) em que Lirovsky, o personagem principal da peça (acredite, há sim mais de 1 personagem) nos tenta vender seu trabalho de anos: o livro ‘Mercadorias e Futuro’. Quanto vale?
Um parágrafo de motivação
Para mim bastava dizer que a revista Veja criticou negativamente a peça para que o ingresso valesse a pena. Mas isso é artigo crítico dentro de um blog que quer ser sério, então argumentaremos.
Para mim bastava dizer que a peça era do autor dos versos “Quando a saudade chegar/com seu batalhão/de portas estandarte e tantas bandeiras”. Ou “Na madrugada de vento seco, no clarão da grande lua prateada/ no recôncavo do sol/(…)Na pedra dos gaviões/ Uma mulher deitada/ o nome é Maria/ a dor conduzindo o filho terceiro/(…)/Vai nascer outro homem ouviram?” Mas isso também não é argumento.
Melhor, assista sem motivos – eles são subjetivos.
Um parágrafo de crítica
Lirovsky é um mercador, um vendedor ambulante que tem um objetivo (in)comum(?) vender profecias. Durante toda a sua vida, por ligação ou atração, coletou informação sobre diferentes profetas e suas profecias. Sendo um deles que o instigou a vendê-las.
“Sou Lirovsky da Interlândia. Trabalho procurando profetas — o trabalho é um processo entre a natureza e os homens. Caço identifico interpreto vendo costuro — corto emendo sobra e dou, pinto em cima renomeio trafico enfeito compartilho confeito vivo disso. Ganho dinheiro com poesia sobre o futuro e os seus derivados e aqui apresento o meu produto. Mercadorias e futuro”.
Mas como vender o que parece impossível de se vender? Qual o valor de uma profecia. Para Lirovsky a pergunta ainda se torna maior. Qual o valor da poesia? Pois as profecias são poesias do futuro. Qual o valor de uma mercadoria? Enquanto se questiona, Lirovski vai apresentando o produto de seu trabalho ao lado de uma parafernália de equipamentos criados pelos (fenícios?). A peça se desenvolve em torno desse questionamento e nos apresentam três profetas: João Pedra Maior – profeta que vivia em árvores e escrevia suas profecias em pedras, Tereza Purpurina – profeta que nasceu no Monte Kailas, no Tibet e escrevia suas profecias em cartas, e Benedito Heráclito – um guerrilheiro que comandava uma tropa de sonhadores armados até os dentes e deixou suas profecias penduradas nas ondas de uma rádio pirata.
Pintado o eixo em que gira a peça – um anti-enredo, na verdade uma pausa no caminho. Sem maiores pretensões a não ser a mais capital de todas. Vender seu livro. Armado de todo tipo de palavreado e trejeitos.
“Escrevo sobre o teto do vão do infinito e as pilastras desse salão que interferem na dança, Também sobre a visão que a platéia tem da big band dentro da casa labiríntica”.
Lirovsky se vale das técnicas de camelôs de centros da cidade pelo Brasil afora. Vender o que parece invendável é uma técnica que necessita antes de tudo de um atrativo tão bom e por vezes melhor que o produto. O produto às vezes está aquém da atuação do vendedor.
A técnica para isso é a encenação. Lirinha faz com que seu personagem não só lamurie pelo seu produto como também procura criar laços de intimidade com seu publico – clientes. Contar detalhes sobre sua vida pessoal e mostrar-se em seus defeitos é o mais fatal de todos. Do vendedor Lirovsky nada é dito ocasionalmente, ele não perde o fio do pensamento ou esquece a intenção principal que é vender em nenhum momento. Vale ressaltar o bordão repetido continuamente: “Mercadorias e Futuros, já a venda”.
Lirovsky, mesmo sem saber talvez, seja o macroempreendendor que o economista Keynes, descreveu: aquele que sabe que as relações comercias transpassam não só o ambito individual como também precisam ter noção de uma conjuntura ampla da economia. Ou seja, é conhecer justamente como realidade em torno afeta a minha produção ou a venda de mercadorias.
Lirovsky é direto quanto a isso: “Não peço que vocês acreditem nessas profecias”. Mas parece contra-senso vender aquilo que você afirma que talvez seja loucura? “Profetas são loucos”. Não quando se sabe criar outro sentido para o seu objeto mercadoria. (Karl Marx e o fetiche da mercadoria fala do sentido pessoal que o consumidor cria com sua mercadoria). As profecias adquirem valor de poesia e os profetas de poetas. Então agora por que não comprar?
Lirinha utiliza em seu discurso diversos elementos da cultura popular. Cultivador do cordel e de formas de expressão genuinamente nordestinas, a peça é entremeada de sotaque regional. Padre Cícero é o santo que protege o seu livro. Lourival Batista, Zé da Luz são os cordelistas invocados e citados pelo autor.
Muitas das histórias usadas na peça são trechos autobiográficos da vida de Lirinha como a história da sua mãe protegendo-o por ser magrinho e ou como é sua relação com esse mundo profético.
Não tem estrutura clássica. Talvez alguns dividam a peça em partes desiguais, marcadas pela historia de um dos três profetas pesquisados e uma introdução. Uma duração que poderia ser melhor trabalhada, fazendo com o que algumas vezes o clímax da peça caia. Mas esse é um espetáculo em construção e nem Lirinha é teatrólogo. É uma conversa longa e informal que se manifesta na informalidade das apresentações.
Um parágrafo de conclusão e retomada de temas
A revista Veja diz que o texto é hermético, intricado e pedante. E para afirmar isso em sua edição 2072 cita trechos de profecias. TRECHOS DE PROFECIAS… Justamente as profecias que o próprio Lirovsky disse que teve o maior trabalho em traduzir já que seu significado era recluso.
“Cada cambio age sobre a forma espaço-tempo se expandindo e se contraindo através do cosmo finito mas sem limites”
Kkkkkkkkk
Depois passa a descrever a infância de Lirinha e compará-lo ao louco Antônio Conselheiro dos Universitários.Realmente elitistas não conhecem os imbróglios de um mercado popular. Veja a peça. Veja Veja.
Um parágrafo de informações adicionais
Disponibilizo um link para download de algumas peças musicais usadas na peça.
1. Mercadorias e futuro (introdução)
2. Teresa Purpurina
3. Vitória (música com participação de sua mãe, Elizete)
4. Benedito Heráclito
http://rapidshare.com/files/78379220/Mercadorias_E_Futuro.rar.html
As letras das musicas estão no site www.letras.mus.br
O livro com as profecias está a venda no site da editora Ateliê
http://www.atelie.com.br/loja/pagina.php?pag=detl&cdp=996
Texto, encenação e direção: José Paes de Lira Produção e Co-direção: Leandra Leal Iluminação: Jathyles Miranda Trilha: José Paes de Lira e Buguinha Dub
Engenharia de som: Ricardo Bolognine
Figurino e adereços: Alfredo Jorge Correa de Sá
Cenografia: Maurício Castro
Produção executiva: Gigante César
Programação Visual: Daniela Brilhante e Juliana Freitas
Fotos de divulgação: Bell Moura

Faz uns cinco anos que eu nem trisco na Veja e minha vida só melhorou depois disso, hahahahahaha!
Um abraço, trovador!
Meu amigo,seu blog é muito bom,ao contrario da VEJA que é uma revista pessima que só sabe deturpar as coisas.Mas em toda sociedade tem que existir aqueles que são “do contra”.Um grande abraço
Daquelas mãos adolescentes
“Saiba que autores induzem àquela conclusão óbvia da frase. À vida macabra dos revisores da gramática Padrão”
Gosto da frase. Gosto do gosto. Desgosto do desgosto.
Quem diz 1’a coisa. Dirá outra:
“Um ½ dizer s eu – outro m eu”
y ali mesmo naquele deserto da página/ desertávamos da mora. Jurávamos:
Que se danem os doutos – reinventávamos’ autores. Importante era “A Obra” a ser desconstruída:
1’a duas três quatro … Quantas fossem as Criaturas – seus ativos atores
naquele cerco de LISBOA’ língua mãe fora madrasta:
“Má. Incapaz de sentimentos afetuosos & amigáveis”
Com Veja ou sem Veja,valeu a pena cada 0,04 centavos/min !
òtimo post. Feliz dia internacional do logue!
digo, blogue!
“…não quero mais saber de gotas de lua! Quando chegar aqui, vai ter que cuspir o sol!”
Oh Valete de Paus acalentai Tereza Purpurina!
aeoauheoaueh!
[...] CavalierSansMerci [...]
Balanço da Semana [Parte 2] - Lirinha! « .: Vida - Colorida - Alegria :. disse isso em Outubro 16, 2008 às 8:30 pm
Parabéns, deu pra sentir (quase) toda a emoção de ter visto o espetáculo ontem!